TÁXI

Era sexta – feira à noite. Uma chuva fina caia e deixava tudo frio e triste. Emily acabara de sair do trabalho. Vinte e cinco anos, chefe do departamento de redação do jornal local, semblante cansado. Daria tudo para estar em casa, enrolada em seu cobertor, saboreando uma deliciosa caneca de chocolate quente acompanhada de um bom livro.

Os carros passavam por ela na rua. Os letreiros vermelhos anunciando cartomantes capazes de melhorarem sua vida em um piscar de olhos confundiam-se com a neblina espessa que se formava.

– Deus, por favor, mande um táxi. Meus pés doem mais do que o normal – sussurrou Emily, apressando-se ainda mais. Tinha receio de encontrar algum serial killer por aquelas bandas.

De repente, como se Deus tivesse ouvido sua prece tímida, um táxi apareceu. Ela acenou para que o carro parasse e ele o fez.

– Isso são horas de uma bela moça andar sozinha pelas ruas? – disse o motorista, um senhor alto de cabelos brancos, bochechas rosadas e sorriso iluminador

– Eu acabei de sair do trabalho. Sextas-feiras são os piores dias da semana para se encontrar um táxi por essa região – Emily olhava para dentro do carro, analisando o rosto simpático do senhor.

– Entre, minha querida, ou você acabará pegando um resfriado.

Emily sentou-se confortavelmente no banco de trás. O carro tinha um leve cheiro de sangue, o que a deixou preocupada.

– Ontem fui caçar com uns velhos conhecidos. Tive que trazer o que consegui dentro do porta-malas, me perdoe pelo mau cheiro.

– Sem problemas.

– Qual é o seu destino? – disse o senhor olhando por cima do ombro.

– Vou para a Rua Melbourne, esquina com a Golden Book.

O senhor deu partida no carro e lá se foram. Durante o percurso, o velho fez várias perguntas à Emily. Aquilo era inquietante, principalmente para uma pessoa como ela que não gostava muito de falar.

– Eu moro sozinha. Meus pais moram na Califórnia e eu decidi vir para Nova Iorque viver minha vida solitária – Emily sorriu ao pensar em sua vida bem sucedida e vazia, algo muito contraditório para uma mulher naquela idade.

– Nenhum rapaz a faz feliz, minha filha?

– Não tenho tempo para isso. O trabalho consome meu tempo por completo e eu não creio que eu deva me envolver com alguém no momento.

Emily já estava ficando profundamente encabulada com as perguntas quando algo chamou sua atenção. Uma faca estava jogada embaixo do banco. Uma camada de algo vermelho a cobria. Sangue. Tentou disfarçar o pânico, mas o seu olhar aflito a entregou.

– Viu algo que não gostou, minha querida? – perguntou o velho, agora parando o carro.

– Não, pode continuar a dirigir. Eu estou bem. – Emily mentiu, mas às vezes era preciso.

– Sabe de uma coisa? Você me lembra muito a minha finada esposa. Seus cabelos longos e escuros, sua pele branca… Pena que falava demais, se intrometia demais nos meus assuntos particulares. – disse o velho ligando o carro novamente – Vivia implorando atenção, mas o meu trabalho exigia muito de mim. Eu era caminhoneiro, andava por esse mundão à fora e só voltava para casa uma vez por mês. Quando chegava, saia com os meus colegas e bebia. Como era bom!

Emily estava começando a entrar em pânico. O humor do velhinho simpático e sorridente havia mudado completamente ao relatar aquela história. Um tom de maldade surgia por trás daquela doce voz.

– Sabe o que aconteceu, Emmy? Um belo dia, voltei para casa após ter passado um tempo bebendo com uns conhecidos e a encontrei dormindo no sofá. Ela me xingou, dizendo que eu não era um marido responsável e que não queria mais viver comigo se eu continuasse a sair com os meus amigos. Veja, Emmy, quanta injustiça! Um pobre coitado como eu não ter direito de se divertir! Um dia ela saiu para fazer compras e eu me prontifiquei a fazer o jantar. Ela voltou toda sorridente, pois seu “maridinho” estava sóbrio e havia cozinhado para ela. Eu peguei a faca que havia cozinhado, essa mesma que está debaixo do banco, e dei três golpes em seu crânio. Nunca mais ouvi reclamações na minha vida! – ele sorria, relatando tal fato.

Emily ouvia tudo com pavor, o sangue fugindo do corpo como se houvesse congelado. Queria saltar imediatamente do carro, mas como? Todas as portas estavam trancadas.

– Não fique assustada, minha criança. Isso aconteceu há muito tempo – disse o velho calmamente, como se houvesse contado o mais lindo conto de fadas à uma bela garotinha.

– Eu quero sair daqui. Abra a porta por favor. – Emily disse, desesperadamente – Eu pago a corrida em dobro, não tem problema.

– O que é isso, coração? Nós acabamos de nos conhecer. Isso seria uma tremenda indelicadeza da sua parte.

– Eu fico na próxima esquina. Eu te pago, o senhor segue a sua vida e eu finjo que não ouvi nada disso.

– Ah, sabe de uma coisa? Acho que vou esticar mais um pouco a nossa viagem, que tal? Eu esqueci de dizer o quanto ela gritou, implorando para que eu não a matasse… Aqueles gritos ecoam como música pelos meus ouvidos até hoje. Eu daria tudo para ouvi-los outra vez.

O velho parou em uma esquina não muito longe da Rua Melbourne. Desligou o carro calmamente. Nenhuma alma passava pela rua naquele momento. Passou para o banco de trás e pegou a faca ensanguentada com a qual havia matado sua primeira esposa e agora mataria Emily.

– Não! Pare, por favor! Não faça isso. – Emily gritava desesperadamente.

Olhou fixamente dentro dos olhos azuis do senhor, que se deleitava com o momento. A lâmina da faca passou e ela pôde ver pelo reflexo o espanto em seus olhos. Fechou-os bem, talvez assim não sentisse tanta dor. Tudo ficou escuro.

Emily acordou assustada. De sua testa escorria gotas e mais gotas de suor. Não era uma boa ideia ler contos de terror antes de dormir.